terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Uma visão cristã sobre PLUR1BUS

O smile meio "imperfeito" sempre me lembra de Nirvana.

Do latim "de muitos" ou "entre muitos", pluribus é uma palavra que você nunca deve ter ouvido falar até o lançamento da série da Apple TV em 2025. Com o hype coletivo, tive que conferir e me chamaram a atenção alguns pontos do conceito da série. Vou citar spoilers da série, então se você (como eu) não gosta de saber antes, melhor ler depois.

Assim como muitas séries e filmes, assisti Pluribus "no escuro". Não no sentido da luz apagada, mas sem saber do que se trata a série. Isso permite que o episódio piloto me surpreenda, pois não sei o que esperar. Em alguns casos, evito até trailers, pois estes também são recheados de spoilers (tem filme que o trailer conta tudo, até o final! Sabe quando um personagem qualquer passa por algum sufoco, de quase morte, mas tu sabe que vai dar tudo certo porque ainda não passou aquela cena que tinha no trailer? Então...).

No primeiro episódio vemos como tudo aconteceu e o impacto inicial sobre a protagonista. A trama de Pluribus se desenrola em um mundo onde uma infecção (muito vibe de 2019/2020) transformou a humanidade em uma única consciência. A protagonista é uma das pessoas que não foi afetada.

Por algum motivo, ela se sentindo sozinha, lembrei desse clássico! Se não viu, veja! - 28 Days Later (Extermínio)
Os que fazem parte da "mente coletiva" perdem a sua individualidade. Não há mais "eu", apenas "nós". Na realidade, julgo que a pessoa (indivíduo) nem esteja mais ali. Penso que o vírus (não sei o termo correto, então vou citar vários aleatoriamente) toma conta das pessoas e usa os corpos para o bem comum. A hyve mind tem o conhecimento e memória de todos que fazem parte, mas é uma única consciência que controla todos. Em outras palavras, as pessoas viraram lemmings.

Vai dizer que não é a mesma ideia?
A mente coletiva é literalmente coletiva. Não há egoísmo, pensa apenas na sobrevivência da espécie, mas sem impactar o ambiente. Ou seja, não são capazes nem de tirar uma maçã de uma árvore, porque julgam não possuir o direito de "matar" a maçã.

Os que não foram "assimilados" (como a protagonista), são tratados de forma gentil e amorosa. Na realidade, ai está uma pegadinha. O objetivo da mente coletiva é assimilar essas pessoas, para que também façam parte, pois a vida coletiva é melhor e só tem vantagens, então ela julga que todos devem ser parte. Dessa forma a humanidade (literamente, o mundo inteiro) busca agradar os "não-assimilados", criando uma falsa realidade onde tudo é perfeito. Mas será que só tem vantagens? 

Os não-assimilados só esperando mostrarem as câmeras escondidas.
A forma como o mundo age após a bactéria é impecável. Cada indivíduo age de forma colaborativa e comunitária, sem egoísmo ou conflito. Se um precisa de algo, todos os outros automaticamente contribuem para satisfazer essa necessidade. As decisões são tomadas por um consenso instantâneo da consciência coletiva, e a execução é fluida, sem discussões ou divergências. Pense em um gigantesco formigueiro, mas com bilhões de seres humanos, todos agindo como uma única unidade, em perfeita harmonia. Ninguém fala (não precisa). Não há debate sobre a melhor forma de fazer algo, apenas é feito. Não há mais fome, violência, guerra ou miséria, porque todos são um e cuidam uns dos outros. A consciência é global e o objetivo sobreviver. Não há desperdício de recursos, tudo é feito pensando em eficiência, seja no uso dos recursos e até na questão dos humanos que fazem parte da mente coletiva.

À primeira vista, parece utópico, não é? Há uma paz inegável, uma segurança absoluta e uma igualdade radical. Não existem ricos e pobres, fortes e fracos, pois as necessidades de todos são as necessidades da mente única. Conflitos são inexistentes, e a colaboração atinge um nível impensável para os "não-assimilados". Parece o paraíso na Terra, onde todos vivem em função do bem comum.

Só que o preço disso tudo é alto. Não há liberdade. Não há individualidade. Você deixa de ser "você" para ser uma partícula de algo maior. O "eu" desaparece para existir o "nós". Não há propósito pessoal, sonhos individuais ou a alegria de uma conquista solitária. Não há nem mesmo "vida" no sentido humano da palavra, pois a existência se torna meramente funcional, sem a complexidade das emoções, das escolhas e dos erros que nos definem. É uma existência passiva, sem a chama da autonomia.

Há os que desejam pagar o preço, os que desejam lutar, os que desejam se aproveitar, os que não sabem nem que algo está acontecendo...

O único propósito da mente coletiva é multiplicar, ou seja, que mais pessoas (ou seres no universo) façam parte. Para isso, a manutenção da existência é o objetivo primário. Não há um sonho maior, não há busca por conhecimento, crescimento, amadurecimento.

Além de tudo isso, um ponto prático a ser comentado é que, pelo fato da mente coletiva ter o senso de bondade e evitar interferir na vida animal e vegetal para a própria existência, os dias estão contados. As reservas de alimentos atuais vão acabar um dia. Se não resolver esse problema, a humanidade será extinta.

Talvez, assim como eu, diante de alguns pontos, você deve ter percebido que algumas partes parecem muito com aspectos do cristianismo. Ou pelo menos como deveria ser e em alguns pontos como é percebido. A mente coletiva (cansei de escrever isso, e para não buscar um sinônimo, a partir de agora vou usar apenas MC, até porque CC de consciência coletiva fica estranho, pois lembra de Creative Commons, obviamente) não é cristã, e nem vi como crítica, mas ao olhar com os "óculos de Cristo" é possível ver pontos de semelhança e discordância. Vejamos:

  • Tem algo maravilhoso para as pessoas: eles querem que os "não-assimilados" sejam "assimilados" à MC porque é algo maravilhoso para eles (para os "não-assimilados") fazerem parte. Isso é uma demonstração de amor e acolhimento da MC, pois quer o bem de todos (apesar de em alguns momentos ficar meio aberto se isso é uma realidade ou é só a MC vendendo o peixe). Isso porque a MC oferece paz, segurança, fim do sofrimento (a protagonista está passando por um luto, então é um dos argumentos). Essa busca por integrar o outro, por amor, tem uma ressonância com o desejo cristão de compartilhar a Boa Nova. Jesus foi enviado porque Deus nos amou primeiro (1 João 4:19), e agora devemos ir e proclamar o evangelho para que mais pessoas possam ser salvas e fazer parte desse amor. Esse é inclusive o objetivo principal do cristão, o de ir e fazer discípulos (Mateus 28:19,20).
  • Vida em comunidade, pensando no próximo, não em si: sem egoísmo, sem vaidade, sem a busca por vantagens individuais. A MC é o altruísmo levado ao extremo (altruísmo sempre me lembra da Abnegação, de Divergente). O cristão também é chamado a uma vida de comunidade, de pensar no próximo como a si mesmo, de abnegação. Paulo fala em Filipenses 2 que devemos ter o "mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude", sem fazer as coisas por ambição egoísta ou vaidade, "mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos". E complementa dizendo que "Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros". "Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus", e continua com a demonstração da humildade de Cristo.
  • As pessoas (os que não são parte da MC) não entendem e se sentem ofendidas com a ideia: para quem está de fora, a ideia de perder a individualidade é assustadora, quase um sacrilégio. Afinal, se eu for "assimilado", "eu" vou deixar de "existir" (esse é mais um ponto, a da transformação). Ter Jesus como Senhor também requer morrer para o "eu" e nascer de novo, uma nova vida, deixando tudo o que era da velha vida para trás (também é transformado). Morre o velho homem e nasce o novo homem. É por isso a mensagem do evangelho, muitas vezes, é vista como "loucura" ou ofensa para aqueles que não a compreendem ou não a aceitam. Mas calma que até nessas comparações tem coisas que não se encaixam (você já deve ter percebido e levantado o dedo com um "mas não é bem assim, tu tá viajando"), vamos chegar lá. Por equanto, só pegando uns insights do que parece semelhante (assim como o que a MC tenta oferecer para os não-assimilados - parece, mas não é).
  • Não dá pra explicar, é preciso experimentar: a MC insiste que a protagonista não pode entender sua "paz" sem experimentá-la. Algo como "quando você fizer parte vai entender o quão maravilhoso é". É uma sensação, uma conexão que transcende a lógica individual. Não é o mesmo discurso que usamos? O cristianismo depende de , e a "fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos" (Hebreus 11:1). Por isso, a "experiência com Deus" muitas vezes é assim: intangível, difícil de descrever para quem não é salvo e regenerado. Alguns tem dificuldade de aceitar o que um cristão fala sobre Deus, pois não crê. Mas como explicar a graça? O amor de Deus? E a paz que excede todo o entendimento? Podemos até tentar explicar; para compreender totalmente, é preciso experimentar.

Além disso, tem a questão do fim da ansiedade. A MC diz: "Você nunca mais vai estar sozinho, nunca mais vai ter medo". É quase um eco de "Não andeis ansiosos" ou da promessa de que Jesus estaria conosco todos os dias, mas de uma forma bem diferente

Você já deve estar pensando que essas comparações "não são bem assim". Realmente, apesar das semelhanças superficiais, a MC difere drasticamente do cristianismo em seu cerne, e a palavra-chave aqui é liberdade. Eles são como um formigueiro: pensam como um único indivíduo, sem autonomia, sem a capacidade de questionar ou escolher um caminho diferente. A individualidade é aniquilada em prol da unidade.

É por isso que, apesar similaridades em alguns pontos, não vi como crítica. Como Cristão, a cada momento em que via algo e pensava "olha, essa visão da MC parece com o evangelho", era rapidamente derrubado pela falta de liberdade, propósito e o principal, a falta de Deus. Mas há quem possa dizer que tem crítica ao cristianismo porque pensam que "os cristão não são livres", pois "não podem fazer o que querem". Será?

Na realidade, liberdade só há em Cristo. Ele não nos anula (como o conceito da MC em Plurbus). Pelo contrário, Ele nos mostra quem realmente somos, tira as escamas dos nossos olhos para que possamos ver a Verdade e fazer escolhas conscientes. Antes de Cristo, somos cegados pelo pecado, e nossa escolha NUNCA é agradar a Deus. A vida sem Cristo parece livre, mas é escravizada pela carne

É tipo isso.
Cristo liberta ao nos mostrar como agradar a Deus e possibilitar meios de adorá-Lo, com a capacidade de escolher amá-Lo ou não em cada momento de nossas vidas. Ele não quer robôs programados para obedecer; Ele quer filhos que escolhem se relacionar com Ele. Como Deus não se relaciona com o pecado, esse relacionamento só é possível porque Cristo pagou o preço dos pecados na cruz.

Após a conversão, o Espírito Santo de Deus habita em nossos corações e nos conduz em uma vida para Deus. Ele não nos controla, Ele não nos tira a individualidade. Ainda somos indivíduos com sonhos, vontades, desejos e pecados (que lutamos diariamente, mas já estão pagos). Não fazemos parte de uma mente coletiva de Deus. Pelo contrário, o Espírito Santo nos mostra o caminho, nos capacita, nos convence do pecado e da justiça, nos consola. Ele é nosso guia, nosso amigo, não um ditador que nos transforma em meros autômatos. No cristianismo, você continua sendo você, mas uma versão restaurada, aperfeiçoada e liberta de você mesmo. Bem diferente da MC, não?

Enfim, curti demais Pluribus! O hype é verdadeiro. Apesar desses devaneios comparando com o cristianismo, a série nos força a refletir sobre o que realmente valorizamos: a segurança e a paz de uma unidade perfeita, ou a beleza caótica e libertadora da individualidade e da escolha? Do ponto de vista cristão, a resposta é clara. Deus nos convida a uma unidade em Cristo, onde somos um corpo com muitos membros, mas cada membro é único, valorizado e tem seu próprio propósito. Onde cada membro, inclusive, tem a liberdade de não cumprir com sua responsabilidade e acabar atrapalhando. E isso é a igreja, uma unidade que celebra a diversidade, não que a aniquila.

Não somos chamados a ser formigas, mas a ser filhos amados, com mentes, corações e vontades próprias, que escolhem seguir Aquele que nos libertou para a verdadeira vida. E essa é uma experiência que, como a MC diria, só quem experimenta sabe. A diferença é que a nossa experiência nos torna mais humanos, não menos.